A obra nascendo
Há uma diferença bem interessante entre poema e poesia. O primeiro tem uma existência material, é o que está contido nos livros, é palpável, empírico. Já o segundo é o que se encontra dentro do artista e o que atinge o leitor, o fruidor. Por isso mesmo, é também o que dá vida àqueles versos impressos, estruturados palavra após palavra.
Divagando um pouco mais, a tal poesia – ainda num estágio “embrionário”, lá no peito do poeta – talvez nem esteja estruturada versos… Talvez seja ainda uma sensação, uma percepção que, ao invés de retornar “pra fora” através de uma reação, tenha se voltado pra dentro; um sentimento que se faz arte.
Pensando dessa forma, podemos considerar que uma obra de arte – seja ela um quadro, uma pintura, uma encenação – já exista bem antes de sua execução material. Mais ainda, antes mesmo de sua idealização material! Este ser que existe dentro do artista está livre de acidentes, de materialidade: é ainda um sentimento que quer uma linguagem pra se tornar material. Com isso, o artista escolhe quais objetos irá se valer pra tornar sua verdade visível a todos: figuras geométricas, notas musicais, argila, seu próprio corpo.
A galera do abstracionismo (Kandinsky, Klee, Malevich, entre outros) teve uma grande sacada quando concluiu isso tudo aí de cima: perceberam que não precisavam de objetos figurativos do mundo real (paisagens, retratos ou figuras comuns) para descrever o que havia dentro deles. Eles precisavam apenas expressar. Aqueles pintores não consideravam suas obras abstratas – para eles, os pintores que se valiam de objetos reais para descrever suas sensações é que eram abstratos! – mas, o próprio Kandinsky define sua obra como a concretização daquele núcleo artítico que move todo artista.
Isso tudo deixa claro que a principal tarefa do artista não está em encadear belos acordes em uma harmoniosa melodia, mas que sua técnica esteja à serviço da verdade que nasce dentro dele próprio. E que sua sensibilidade esteja aguçada para observar – com olhar de poeta – aquilo que Deus dispõe para nós, todos os dias.
