A guerra urbana que acontece no Rio de Janeiro me fez lembrar do filme “Tropa de Elite I”. Não me refiro propriamente às cenas, mas ao que o filme foi capaz de fazer com o espectador: como a narrativa não era “mastigada” – ou seja, não ditava quem era bandido ou mocinho -, ficava ao nosso cargo dar (ou não) esses rótulos. Lembro-me que o resultado foi bombástico! Pessoas que até então pregavam paz e amor começaram a apoiar a conduta da tropa enquanto alguns céticos de carteirinha chamavam a película de fascista . Falou-se na banalização do mal, no lucro que a violência trazia ao entretenimento… E o filme começou a evidenciar onde se sustenta o posicionamento de cada um de nós.
A banalização do mal não está exatamente no fato de que estamos nos acostumando com o mal que assola a sociedade. Ninguém quer o mal. Cada um sabe a dor que vive e, apesar de muitas vezes acostumados com um cotidiano violento, todos desejam ardentemente uma vida de paz.
A banalidade do mal se dá quando vivemos condutas ditadas pelo sistema sem pensar na conseqüência. Não há questionamento, não há posicionamento. Hannah Arendt ilustra isso muito bem em”Eichmann em Jerusalém”. No livro, Arendt – que fez a cobertura jornalistica do julgamento do nazista Adolf Eichmann – mostra-se estarrecida com o que vê: um funcionário patético incapaz de questionar as ordens que recebia, de refletir sobre seus atos “burocráticos”.
Hoje, nossos “superiores” são o próprio sistema e seu discurso neoliberal, que ditam regras e normas de condutas que são obedecidas e cumpridas com o intuito de “subir na carreira”, ou seja, ganhar prestígios, privilégios, lucros. Tudo, mais uma vez, mastigadinho, sem um convite à reflexão.
Como exemplos de banalização do mal, poderia citar atos como o consumo de drogas, a compra de produtos piratas, sonegação de impostos, entre outros, que já possuem resposta pronta (“Os impostos são altos!”, “Os DVDs e games são muito caros!”, “A maconha não faz mal à saúde!”). Cada uma dessas respostas desvia seus emissores de tirar suas proprias conclusões…
Mas a banalidade do mal se dá também num nível mais sutil e que precisa de indagação imediata: quando depreciamos alguém por sua aparência (atualmente, algo muito comum no meio musical) ou tiramos proveito da bondade alheia (muitas vezes com um discurso cristão).
Tente fazer uma conexão entre os diferentes atos citados nesse texto. Você vai perceber que a conexão entre eles não se dá com um número tão grande de elos como imaginávamos…