Simples

Chega uma hora em que o desafio do músico é alcançar o simples. A vontade de superação, de aprender, de aperfeiçoar técnica começa por afastar o artista dos traços primitivos de iniciante… Certamente que a técnica aprimora a pincelada, cristaliza notas e acordes do músico mas a tendência é que não nos emocionemos mais com um acorde de três notas ou com rudes traços numa tela…

Mas, se a essência da arte é a emoção, onde está a técnica para se aprimorar a sensibilidade?!!

…Não há!

A sensibilidade se aprimora com a vida, com o viver… E, por isso mesmo, sensibilidade não é uma exclusividade do artista, mas é própria de quem sabe viver. E não há nada mais básico e simples do que viver!

Teria vários exemplos do que tento descrever neste post, mas o Bon Iver  se aplica não só à simplicidade, como também investe na expontaneidade e no experimentalismo (sem exageros intelectuais).

Boa diversão!

A Tropa e nós

A guerra urbana que acontece no Rio de Janeiro me fez lembrar do filme “Tropa de Elite I”. Não me refiro propriamente às cenas, mas ao que o filme foi capaz de fazer com o espectador: como a narrativa não era “mastigada” – ou seja, não ditava quem era bandido ou mocinho -, ficava ao nosso cargo dar (ou não) esses rótulos. Lembro-me que o resultado foi bombástico! Pessoas que até então pregavam paz e amor começaram a apoiar a conduta da tropa enquanto alguns céticos de carteirinha chamavam a película de fascista . Falou-se na banalização do mal, no lucro que a violência trazia ao entretenimento… E o filme começou a evidenciar onde se sustenta o posicionamento de cada um de nós.

A banalização do mal não está exatamente no fato de que estamos nos acostumando com o mal que assola a sociedade. Ninguém quer o mal. Cada um sabe a dor que vive e, apesar de muitas vezes acostumados com um cotidiano violento, todos desejam ardentemente uma vida de paz.

A banalidade do mal se dá quando vivemos condutas ditadas pelo sistema sem pensar na conseqüência. Não há questionamento, não há posicionamento. Hannah Arendt ilustra isso muito bem em”Eichmann em Jerusalém”. No livro, Arendt – que fez a cobertura jornalistica do julgamento do nazista Adolf Eichmann – mostra-se estarrecida com o que vê: um funcionário patético incapaz de questionar as ordens que recebia, de refletir sobre seus atos “burocráticos”.

Hoje, nossos “superiores” são o próprio sistema e seu discurso neoliberal, que ditam regras e normas de condutas que são obedecidas e cumpridas com o intuito de “subir na carreira”, ou seja, ganhar prestígios, privilégios, lucros. Tudo, mais uma vez, mastigadinho, sem um convite à reflexão.

Como exemplos de banalização do mal, poderia citar atos como o consumo de drogas, a compra de produtos piratas, sonegação de impostos, entre outros, que já possuem resposta pronta (“Os impostos são altos!”, “Os DVDs e games são muito caros!”, “A maconha não faz mal à saúde!”). Cada uma dessas respostas desvia seus emissores de tirar suas proprias conclusões…

Mas a banalidade do mal se dá também num nível mais sutil e que precisa de indagação imediata: quando depreciamos alguém por sua aparência (atualmente, algo muito comum no meio musical) ou tiramos proveito da bondade alheia (muitas vezes com um discurso cristão).

Tente fazer uma conexão entre os diferentes atos citados nesse texto. Você vai perceber que a conexão entre eles não se dá com um número tão grande de elos como imaginávamos…

Nadando pra onde?

Martin Bubber, no final de “Eclipse de Deus” me surpreende dizendo “…Depois de muito tentarmos nadar contra a correnteza, não seria a hora de buscarmos uma nova fonte que nos levasse para onde realmente queremos ir?”. De fato, admito que, por muito tempo fiz questão de salientar pra todos e pra mim mesmo que eu nadava contra a correnteza! Seja pela escolha profissional ou pelos valores que carrego comigo, vivia como se estivesse lutando contra um gigante e – heroicamente – permanecia ainda de pé.

Mas, de uma certa forma, nadar contra a correnteza é um pouco viver da negação do que discordamos. Não é, efetivamente, fundamentar sua decisão e seu caminho. Contra a correnteza estão os que dogmaticamente condenam os “perdidos e pervertidos”; contra a correnteza estão aqueles que fundamentam sua vida em lições de moral e regras de conduta. Escolheram passar a vida condenando, censurando, apontando… Vivem na mesma correnteza, apenas no sentido inverso…

Na verdade, nascemos nessa correnteza; e nadar contra ela só me levaria de novo pro começo. Não dá pra começar mais por ali!…

Buscar uma nova correnteza é ter uma compreensão fundamentada de seus próprios valores – até mesmo os adquiridos na Igreja – e a noção clara de que a vida que vivemos não é um “ato de revolta contra o sistema”, mas a forma mais honesta e original de vivermos aquilo que chamamos Verdade.

Novo cd surgindo: Bruno Camurati

Um novo cd saindo do forno para o mundo: “Sobre os Dias”. Bruno Camurati gerou um álbum revelador, sincero e objetivo. Os temas que aborda – exclusão social, busca de sentido na caminhada, vontade de mudança -  são muito bem tratados (e “amaciados”) pela refinada poesia do autor/ intérprete.

Belíssimas músicas, grandes interpretações. Um grande cd de um grande amigo.

Parabéns Bruno!

…Aguardem!

Dica de som bom: Keith Jarret

Eu sempre achei que existe um momento em que, durante o tocar uma música, estamos tão fundo no mergulho que damos que temos a sensação de não sentir mais o tempo. Quando estou ali, não há tempo; não há próximo compasso e não se passou nenhum. Só há o agora!

Eu sei, tá muito doido isso… mas é uma sensação! E é forte! É como se tocassemos o eterno, o divino!…

O tema principal de “Prism” – do disco “Changes”, do pianista Keith Jarrett – nem aparece no vídeo! O trecho em questão começa logo após o final do solo do baixista Gary Peacock; a música pede um novo rumo e eles obedecem.

Um êxtase sincero, verdadeiro, honesto. Uma amostra do que é “tocar o eterno” com a arte.

Dica de som bom: Gustav Mahler

Faz tempo que não passo pelos meus cds de música clássica. Engraçado como a música instrumental – e, com mais propriedade, a orquestral – faz emergir nossa humanidade. Notas simpatizam com os pontos mais latentes em nós: medo, esperança, solidão, paixão… Não é uma questão de ser melancólico ou coisa parecida, mas o que ouvimos cotidianamente nas rádios (claro, há excessões…) é sempre algo que nos remete a uma euforia, a um espírito do “vamos em frente!”.

E é pra ir em frente mesmo! Mas uma pausa é sempre recompensadora…

A introspecção que nos remete Mahler no mov. IV (Adagietto) de sua Quinta Sinfonia, nada tem de “difícil” (como alguns se referem à música erudita). Mas também nada tem de banal! É simples e profunda, grandiosa e pontual; própria pra qualquer pessoa que ama, sofre, ri e tem esperança.

Ninguém merece ser subjulgado e privado de ouvir e vivenciar a boa arte.

Ouça-a e lembre-se: não é pra ser compreendida com o intelecto, mas com o coração.

SulianoLaje – Uma experiência

Entre alguns projetos pessoais que tenho, está um duo de guitarra e bateria com o meu amigo Diego Laje. Este trabalho está em laboratório faz uns 2 anos (claro que 2 anos de muitas pausas…) e tem me trazido muita satisfação. Utilizo um Loop Station, no qual gravo minha guitarra em tempo real, e fazemos o tema a partir dalí. O LS não é uma obrigação, portanto, o desafio está aí: termos um resultado que não cause uma sensação de que o ouvinte está diante de algo incompleto.

Bem, o som que está lá no meu MySpace é uma gravação “ao vivo” de uma releitura que fizemos de “A Forest”, do The Cure. Esteticamente o trabalho vai caminhar naquela praia ali…

Vou dando notícia… Se puder, dê uma comentada…

Abraço!

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Dica de bom som: Black Dub

Um som que tenho ouvido ultimamente é o Black Dub; um pop com um som mais cool, com grooves marcantes e uma maturidade imbatível na execução. Daniel Lanois, o guitarrista e líder do projeto, é um produtor de mão cheia, tendo trabalhado com grandes nomes, como o U2. Brian Blade é um dos bateristas que mais admiro atualmente e a cantora (que eu não conhecia) tem uma voz sensacional.

Vale uma pesquisada e algumas escutadas.

Gosto não se discute??

Será que quando não gostamos de algo é simplesmente por uma questão de “gosto” ou nos falta alguma coisa pra que passemos a ter interesse pelo que até então afirmávamos não gostar?

Vale ressaltar que gostar não é algo simplesmente relacionado com o belo, o “bonito de se ver”; gostar é ter interesse, curiosidade mesmo que a obra observada nos traga sentimentos que não tenham relação com o “belo” (como quando assistimos a um bom filme de suspense…).

Sempre que nos deparamos com uma arte qualquer (arquitetura, pintura, etc) inicia-se ali uma troca, um jogo entre nós e a obra de arte. Desse jogo nasce nossa impressão sobre a obra. A brincadeira, na verdade, começa na tentativa de entender a regra do jogo. Nesta etapa, tentamos decodificar a linguagem, nos permitimos sentir sentir e nos apropriamos de cada impressão em nossa alma. Não é algo mecânico, calculado. Entender a regra do jogo é um exercício de sensibilidade, um desafio.

O que faz uma obra ser uma grande obra de arte é a capacidade do artista de desenvolver um jogo genial. A linguagem empregada, a técnica, o desenvolvimento estético, tudo entra no jogo e brinca conosco.

Dizer que não gostou é não entender a regra do jogo. Gostar de algo é apreendê-lo e compreendê-lo. A regra para compreender uma maça é saboreá-la; a regra para compreender uma obra de arte é absorvê-la.

Gosto se discute sim! Debata, viva!!

Inspiração x Transpiração

Costumo ouvir a máxima “a música é 10% inspiração e 90% transpiração” com cada vez mais frequência… Não sei se concordo com isso…

Primeiramente, me soa bastante pejorativo pontuar a transpiração como o componente justificativo para dizer que música é uma profissão, um trabalho. Parece que, para o autor do discurso, um trabalho que não causasse transpiração seria algo duvidoso.

Em segundo lugar (e eis o ponto que considero importante) é óbvio que a música é – necessariamente – inspiração. Precisa ser. Não se faz música com trabalho braçal ou movimentos repetidos, ensaiados. Daí saem os instrumentistas, aqueles que manuseiam bem seus instrumentos; e a técnica realmente exige suor!

Mas música é exatamente o contrário disso! Ela precisa nascer de uma mente livre, de um peito de criança que transpira de tanto brincar! A música é uma linguagem que o coração do artista utiliza pra gritar suas verdades.

E esse processo é difícil; suamos litros e litros pra conseguir achar a nota exata, a pausa correta, a dissoância perfeita pra expressar um sentimento. Mas esse suor é fichinha diante das ondas que nos impulsionam mar adentro dessa inspiração primeira. E essa inspiração primeira, que antecede todas as outras, tem origem na verdade que antecede todas as outras. A busca de um novo que pre-sentimos já conhecer desde sempre: Deus

Afinal de contas, a inspiração quer apenas trazer novos ares aos nosso pulmões. Nos fazendo sentir pulsantes, únicos, vivos.

música, arte, produção